Pois é…Vou falar que eu tava bem do tipo do post anterior.  Na Índia, longe pra caramba, tendo só 1, 2, pessoas em quem confiar e… Me enfiando num buraco.

 Sempre gostei de escrever porque sempre gostei de pensar. Pensar mesmo. Fazer história, imaginar situações, desfechos, dramas…Quando não sabia ler ainda, pegava o jornal e ficava contando o que tava escrito lá, segundo minha cabeça, em voz alta, pros adultos da casa. De criança eu já era meio de canto. Apesar de ter amigos, sempre foi igualmente divertido pra mim ficar no quarto olhando pro teto imaginando coisas. Eu chegava a me emocionar mesmo com a minha cabeça, entrava na suposição com toda verdade. Ria, chorava… Nunca achei que isso pudesse ser nocivo. Sabia que isso me distanciava um pouco das pessoas por muitas vezes estar mais na minha mente do que num ambiente, mas de criança isso parecia gracioso pra maioria à minha volta.  – Ah,  a Ariádine não dá UM trabalho! Se ela tá em casa você nem percebe! – E eu, via isso como o meu mundo, achava que cada um devia ter o seu.

Português era minha melhor matéria na escola, sem precisar estudar. Conseguia interpretar os textos da prova sem nem precisar lê-los por completo e nunca tive problema com os insuportáveis livros recomendados. Gostava até.
Essa semente de eloquência me fez pensar que devia seguir jornalismo quando saí do colegial, já que esse é o caminho que a sociedade espera que você faça. Tornar-se algo na vida (???).  – É…quero escrever, acho que é a única coisa que faço com segurança e que tenho facilidade. De tudo o que tem disponível acho que nessa profissão aqui eu devo me encaixar.

Tempo passou, não terminei o curso de Jornalismo por motivos alheios à mim, na época. Sofri por isso, mas logo vi o quão valioso era não estar no caminho comum e poder ser o que eu quisesse de verdade, até tudo ao mesmo tempo. Meu medo da mesmice é tanto que não consigo me definir profissionalmente. Apesar de achar que é possível crescer, aprender, evoluir um monte numa mesma área, minha ânsia me faz querer aprender um pouco de todas elas. Por mim eu poderia ser cantora, escritora, cobradora de ônibus, advogada, camareira, estilista, atleta, vendedora de farol, professora, cozinheira, arquiteta, médica, trapezista, pedinte….Cada um num dia. Pode? Pode. Só ser polícia eu dispenso.
Pode-se pensar que dessa maneira, nada vai ser feito com excelência, mas é tudo questão de ponto de vista, vá.  Pra medicina, engenharia, é preciso sim muito mais do que o simples querer. Há muito o que aprender quando se lida com a vida de outras pessoas, mas no geral…Por que mesmo a gente precisa escolher?
Porque essas escolhas são a base da sociedade. Fazem você procurar uma coisa e achar. Discernem os gostos e pessoas. A pergunta é: Até quando precisaremos dessa base pra achar que nos encontramos? Pra nos sentir alguém?

Vivi o último ano sem escrever nada. Longe, “sozinha”, tudo novo…Já vinha escrevendo menos no Brasil com toda a correria que me pus antes de sair de lá. Cabeça funcionando mais rápido do que meu cérebro podia organizar e expressar, como de costume. Acontece. Não percebi o quanto isso acabaria comigo, subjulguei meu talento e minha vontade. Não percebi o quanto botar pra fora era importante. Me deixei levar só pelas viagens,  pela vida nova, me dando o direito de não externar.  Não conseguia nem começar.  Isso, pra uma pessoa que pensa demais é morte, é o fim. Você passa a viver mesmo só na cabeça e esquece o mundo real. As histórias se confundem, as possibilidades se multiplicam, as dúvidas se amontoam. Nada pode ser decidido. E quando é, é sempre uma decisão nublada, pensada além da conta, pouco solucionada.  Passei a me sentir depressiva mesmo, tipo sem ver sentido na vida. Era como se eu tivesse com uma prisão de ventre criativa. Como se eu tivesse acumulado informação demais e isso tivesse me dando indigestão.

Quando percebi que era a falta de expressão que tava me deixando pra baixo, notei o quanto normalmente negligenciamos isso na vida e é essa carência que nos faz sentir perdidos, tristes ou vazios. Sempre. O que nos diferencia dos outros seres vivos é justamente nossa capacidade de criar, de expressar, nossa capacidade divina. Divina, sim, porque se criação é o conceito que os humanos inventaram até pra definir deus, o “criador”, isso nos faz deuses também. Se essa capacidade não for utilizada, estamos mortos, somos figurantes, só nos alimentamos da criação dos outros e nos anulamos. Qualquer pessoa se sente preenchida quando faz algo com autenticidade, quando faz algo só seu, quando tem algo à dar amor incondicional, independente do que.

É triste ver as pessoas acharem que ser artista é uma profissão, assim como ser doutor, bancário ou inspetor. Ser artista é expressar a sua realidade, é o resultado da sua autenticidade misturado com o meio em que vive ou as informações que recebe. Qualquer pessoa em qualquer profissão, se mantivesse sua essência, se se mantivesse artista pois é um desde que nasceu, estaria em paz de espírito. Nem existem maus ou bons pintores. Maus ou bons escritores. Só alguém que resolveu dar sua vida à isso e que o mundo, naturalmente, conspirou. Quem julga bom ou mal é a nossa cabeça alienada, condicionada a formar opinião sobre as coisas. O que importa não é o resultado e sim os meios.

Hoje, tô achando que é só isso que todo mundo precisa. Amar aos outros como a si e amar o que faz. O que faz com o coração, o que faz de autêntico, o que faz de único. Sem explorar isso, sem botar isso pra fora, independente de profissão e meios de ganhar a vida, você está incompleto. É essencial. Não é escolha.

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Sobre ariaround

25, santista, apaixonada e viajante em todos os sentidos...agora em Goa, na Índia. Amante da escrita, de lugares novos, crenças e pessoas.

2 Respostas para “

  1. Rico

    Ficou tanto tempo sem escrever e não enferrujou NADA! Só mais um indicativo de que a idéia desse texto está corretíssima.

  2. Vivian

    Nossa Ari!
    É isso ai, expressão!
    Vc realmente escreve muito bem, eu já dizia seus posts de quando ainda postava no fotolog, era tão bem escrito e verdadeiro, que parecia que estavamos juntinho a vc.
    Parabéns! Escreva, continue, sempre!Bjão Vi

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