Indianizando

Não sei em que ponto aconteceu, mas tenho me sentido cada vez mais apaixonada pela Índia…Não entendia porque eu ainda não me sentia em paz aqui no meu primeiro ano, mas agora, depois de 18 meses passados, olho pra trás e vejo que a minha relação mudou. E só por isso consigo colocar em palavras o que foi pra mim.
É difícil mudar de país, fazer uma aposta, viver de um jeito diferente e assumir que está sofrendo. Eu sabia que seria assim aqui, afinal, mesmo de longe só se ouve o quanto aqui é sujo, lotado, estranhamente religioso…Mas eu sabia também que algo sairia disso, como de qualquer coisa se tens a intenção. É usar o teu sexto sentido pra saber o que vai te acrescentar, te ensinar; se é que te importas…
Inicialmente era só estranheza, choque. Era ver todo dia o quanto os orientais dão importância pras coisas opostas as que você vê do seu lado do mundo. Mesmo eu não sendo a pessoa mais material do leste, muitos, muitos, muitos conceitos e verdades que carreguei a minha vida toda foram questionados, quebrados e desapareceram. O sofrimento veio da ansiedade de saber o que entraria no lugar.
Além de sermos apegados à matéria, à pessoas, percebi o quanto somos apegados também à imagem. Nosso cérebro cria imagens e “títulos” pra tudo na vida; pras nossas opiniões, pras pessoas que conhecemos, pra cada caso, pra cada situação…Tudo porque tem preguiça de observar sem concluir. Olhar e julgar é muito mais fácil, já que uma infinidade de possibilidades desaparecem ali. Sem criar a imagem, nosso cérebro está sempre em alerta e isso cansa seres condicionados a não prestar atenção.  É só por julgarmos, concluirmos e não observarmos com essa real atenção no agora, que vivemos conhecendo a dor.  A busca pela conclusão, a cabeça no futuro é o que nos faz também criar expectativas, e consequentemente, sofrer desilusões.

Meu maior problema aqui no primeiro ano era a relação direta com os indianos, especialmente profissional. Muitas vezes tive vontade de gritar até explodir diante de situações consideradas absurdas pela minha cabeça,  do tipo ter que pegar 4 vezes uma fila num mesmo dia pra pagar 12 contas de 3 em 3 e voltar pro fim porque o caixa é lento demais e não queria deixar outros clientes esperando. Tipo ter prazo com chefe/cliente pra entregar algo e ver o povo do banco/correio/contabilidade pedindo cada vez mais coisas diferentes só pra dificultar e extender o processo (why hurry, ma’am? ). Róla ter que escrever carta pra solicitar E retirar TUDO que você quer  nesses meios e ainda correr o risco deles te mandarem fazer de novo por uma falhinha de tinta, pelo papel não ter qualidade ou por uma letra estar faltando no nome do Mr. “Y”. Ter que pagar 500 rupias pra um taxista metido a esperto pra cima de gringo quando na verdade você SABE que a corrida valia só 50. Ter que ver sua empregada faltar 2, 3 vezes na semana, trocar uma, duas vezes e sacar que TODAS são iguais e sequer dão uma desculpa. Pagar alguém confiável pra cuidar da sua casa quando vocês está fora e vê-la inteira mofada quando você volta de viagem. Ter que lidar com um furdúncio de indianos querendo que você pague um arranhão numa moto x, porque a sua caiu e esbarrou nela quando você nem tava lá pra saber se foi isso mesmo. Não te deixarem entrar no aeroporto porque você não imprimiu a passagem (!).  Ser levada pra salinha de ilegais e esperar alguém ter o bom senso de te atender quando seu vôo sai em 30 minutos só porque você não tinha levado um papel de registro, sendo que a prova está carimbada no seu passaporte…
Enfim…a lista dos supostos absurdos é infinita. E o que fazer diante deles? Eu mesma falava quase todo dia:

-Mas como pode? Onde já se viu um lugar como esse? Como pode isso funcionar do jeito assim e não assado? É absurdo demais! Achei que bondade e justiça fosse um conceito igual pra todo mundo.

E aí está o erro.  Cada vez que você vive algo novo, o que na maioria das vezes é assustador, desafiador, você parte do princípio do que já conhece, porque é a base que te dá segurança.  A imagem que JÁ tem em relação ao assunto e a vida no geral. Mas há maior ignorância do que essa?
No primeiro país que conheci bem além do Brasil, já percebo que nada é definitivo ou absoluto. Tudo é questão de ponto de vista, que no caso, muda de acordo com vários fatores de criação, condição, educação…
Se a intenção é comparar um país estrangeiro com o país que você vive, na boa, melhor nem ir viajar.
Cair nessa real me fez engolir e aceitar todos os absurdos e as bizarrices da Índia e mais ainda, começar a criar grande apreciação.

O engraçado é que Indiano roots não quer conhecer nenhum outro ponto de vista. Não tem vontade de viajar ou saber da cultura ocidental. No começo parece só por tradição mesmo, coisa de bicho do mato com medo de ver lá fora, mas no fundo,  não há a menor necessidade. Se sabem mais evoluídos no caminho espiritual e de fato, o que mais importa? O que um hindu buscando se conhecer cada vez mais, preparando seus pujas e concentrado no seu darma vai querer fazer em Londres, Milão ou Nova York? Ver obras antigas mas não tão antigas quanto as deles? Ver igrejas construídas por um povo que não vive o que prega? Se afundar no sistema cheio de medo em que a gente vive, acumulando por medo da morte, morte essa que é amiga pros orientais? for WHAT?

Eu juro que não via o dia em que diria isso, mas ando amando essas criaturas…

 

 

Indianizing

I don’t know exactly when it happened, but I’ve been feeling in love with India each time more… I didn’t understand why I couldn’t feel in peace here on my first year but now that 18 months passed I look back and see that my relation has changed and just because of this I can now put in words what it was for me.
It’s difficult to change to a country, put faith into something, live a different kind of life and accept you’re not happy. I knew before that this could happen even because all I used to hear about India was how here is a dirty, crowded and weirdly religious place… But I also knew that something could come out of this, like of anything else, if you have the intention. It is to use your sixth sense to know what is going to help you, teach you, add into you, if you care…
Initially it was just chock. I used to see everyday how the easterns praise exactly the opposite things you’re used to see in your side of the world. Even I’m not being the most material girl from west, lots, lots lots concepts and truths that i carried my whole life were questioned, broken and disappeared. The suffering came from the anxiety of knowing what would be in place.
Besides being attached to the matter and to people I realized how much we are also attached to images. Our mind creates images and “labels” for everything in this life; to our opinions, to people we know, to each case, each situation… All because we’re too lazy to observe without conclude. To observe and to judge is much easier once an infinitude of possibilities disappear right here. Without creating an image, our mind is always in an alert state and this tires conditionated beings, that don’t pay attention. It’s just because we judge, conclude and do not observe with this real attention in the present that we live in pain. The search for the conclusion, the mind in the future is also what makes us creates expectations and therefore, suffer delusions.

My biggest problem here in the first year was the direct relation with the Indians, specially in work basis. Too many times I felt like screaming till explode up to situations considered nonsense for my western mind, like have to take 4 times a line in a day to pay 12 bills 3 in 3 and come back to the end because the cashier was too slow and didn’t want to let other clients waiting. Also have deadlines with boss/client to give something and see the people at the bank/accounts/ offices in general asking each time different things just to complicate and extend the process  (why hurry, ma’am?). You also have to write letters to request AND take everything you want in these surroundings  with a risk of they ask you to write it again because the paper is shit quality or because there’s a letter missing in the name of Mr.”Y”. Sometimes you might have to pay 500 rupees to a so called smart taxi driver just because you’re a foreigner even though you know that the ride should cost 50. You have to see the cleaning lady of your house skipping 2, 3 days of work in a week, change one or two times and realize they act all the same without even an excuse. Also pay someone “trustable” to take care of your house while you’re out and see it all moldy when you come back from traveling. Maybe you have to deal with a mess of Indians shouting at you to pay a scratch in a “x” bike, because according to them your bike fell and hit the “x”while parked, when you were not even there to know if it was like that. You can be forbidden to enter the airpot because you didn’t print your plane ticket (!) or be taken to the illegal’s room and wait for someone to solve your problem when your flight departs in 30 minutes just because you didn’t have the paper of your registration, even having the proof you are registered stamped at your passport…
Well…the list of the supposed absurds has no end. And what to do about them? I used to say almost everyday:

– How is it possible? How can it be a place like this??? How can this works in this way, not in that? It’s too absurd! I thought at least goodness and justice had the same meaning for everyone…

And that’s the mistake. Everytime you live something new, what most of times is scary, challenging, you start with the principle of what you know already because this is the base that makes you secure. It’s the image you already have related to some subject or life in general. But is there bigger ignorance than this one?
At the place I  know better besides my own country,  I realize that nothing is definitive or absolute. All is a matter of point of view, that in case, changes according to various factors of education, conditions,  how one was raised… If the intention is to compare a foreigner country to the one you live, better not to go out. Useless.
To realize this, made me “swallow”and accept all the Indian bizarre or nonsense behavior (and be prepared for what I still don’t know) and start to have a real appreciation.

The funny thing is that usually, the Indians themselves have no interest in know any other points of view. They are not travelers nor want to know about the Western Culture. It seems it’s just because of the tradition, afraid of the new, too used to their own habits, but deeply, there’s no need for them. They know themselves as more evolved at spiritual life and in fact, what else matters? What a hindu, trying to know himself each time more, preparing their pujas and concentrated in their dharma would want to do in London, Milan or New York? To see antique monuments not as antiques as their own? Check some churches built by people that does not practice what preaches? Be immersed in the system full of fear we live, accumulate by fear of death, death which is THE  point to the easterns?
For what?

I swear I couldn’t see the day I would say something like this, but I’m loving these creatures…

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Sobre ariaround

25, santista, apaixonada e viajante em todos os sentidos...agora em Goa, na Índia. Amante da escrita, de lugares novos, crenças e pessoas.

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