Huxley piece 1

“Ninguém precisa ir a parte alguma. Nós todos estamos, se ao menos soubéssemos, onde deveríamos.
Se apenas soubesse quem realmente sou, deixaria de proceder como penso que sou. E se parasse de me comportar como penso ser, saberia quem sou. Se ao menos o Maniqueísta que penso ser me permitisse ser o que de fato sou, o “sim” e o “não” viveriam reconciliados na abençoada aceitação da experiência de Ser Único.
Em religião, todas as palavras são obcenas. Qualquer pessoa que se mostrasse eloquente acerca de Buda, Deus ou Cristo deveria ter a boca lavada com sabão carbólico.
A aspiração de todas as religiões de eternizar somente o “sim” em cada par de opostos é irrealizável porque contraria a natureza das coisas. O Maniqueísta isolado, que penso ser, se autocondena a uma repetição infindável de frustrações e está em conflito permanente com outros Maniqueístas igualmente frustrados em suas aspirações.
Conflitos e frustrações – tema de quase toda história e de quase toda biografia.
“Eu lhe mostro o sofrimento”, disse Buda, realisticamente. Porém ele também mostrou o fim do sofrimento – o autoconhecimento, a aceitação total e a abençoada experiência de Ser Único.
O perfeito autoconhecimento gera o Bom Ser, e os Bom Seres realizam uma melhor espécie de Bem. Mas as coisas bem feitas não produzem automaticamente o Bom Ser. Podemos ser virtuosos sem que saibamos quem realmente somos. Os indivíduos apenas bons não são necessariamente Bons Seres; são simples pilares da sociedade.
A maioria desses pilares representa o papel de Sansão. Sustentam a sociedade, porém cedo ou tarde a derrubam. Ainda não existiu uma só sociedade que, sendo criada por Bons Seres, fosse constantemente atualizada. Isso não quer dizer que tal sociedade jamais existirá ou que nós sejamos idiotas tentando pô-la em prática. ”

(A Ilha, Aldous Huxley)

 

 

 

“Nobody needs to go anywhere else. We are all, if we only knew it, already there.
If I only knew who in fact I am, I should cease to behave as what I think I am; and if I stopped behaving as what I think I am, I should know who I am. What in fact I am, if only the Manichee I think I am would allow me to know it, is the reconciliation of yes and no lived out in total acceptance and the blessed experience of Not-Two.
In religion all words are dirty words. Anybody who gets eloquent about Buddha, or God, or Christ, ought to have his mouth washed out with Carbolic soap.
Because his aspiration to perpetuate only the “yes” in every pair of opposites can never, in the nature of things, be realized, the insulated Manichee I think I am condemns himself to endlessly repeated frustration, endlessly repeated conflicts with other aspiring and frustrated Manichees.
Conflicts and frustrations—the theme of all history and almost all biography.
“I show you sorrow,” said the Buddha realistically. But he also showed the ending of sorrow —self-knowledge, total acceptance, the blessed experience of Not-Two.
Knowing who in fact we are results in Good Being, and Good Being results in the most appropriate kind of good doing. But good doing does not of itself result in Good Being. We can be virtuous without knowing who in fact we are. The beings who are merely good are not Good Beings; they are just pillars of society.
Most pillars are their own Samsons. They hold up, but sooner or later they pull down. There has never been a society in which most good doing was the product of Good Being and therefore constantly appropriate. This does not mean that there will never be such a society or that we are fools for trying to call it into existence.”

(Island, Aldous Huxley)

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Sobre ariaround

25, santista, apaixonada e viajante em todos os sentidos...agora em Goa, na Índia. Amante da escrita, de lugares novos, crenças e pessoas.

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