Huxley piece 2

O iogue e o estóico – dois egos que pretendem atingir seus fins fazendo-se passar por alguém que na realidade, não são.  Mas não é fingindo ser um outro alguém, mesmo um alguém sábio e superlativamente bom, que deixamos de ser meros Maniqueístas cegos e isolados para nos transformamos em Bons Seres.
O verdadeiro conhecimento de quem realmente somos é o que nos faz Bons; para sabermos quem realmente somos devemos conhecer nos mínimos detalhes aquio que pensamos ser. Desse modo, descobrimos o que essa falsa ideia nos obriga a sentir e a fazer. Um simples momento de conhecimento claro e completo do que pensamos ser, mas que na realidade não somos, põe um fim momentâneo ao enigma Maniqueísta.
Se renovarmos esses momentos de autoconhecimento do que não somos, fazendo com que se tornem contínuos, poderemos vir a descobrir subitamente aquilo que realmente somos.
A concentração em pensamentos abstratos e exercícios espirituais equivale a exclusão sistemática do domínio do pensamento.
O Ascetismo e o Edonismo são exclusões sistemáticas no domínio das sensações, dos sentimentos e das ações.
Mas o Bom Ser conhece sua verdadeira posição em relação a todas as experiências e, desse modo, está e permanente estado de alerta. Está alerta ao que se possa crer, não crer, às coisas agradáveis e às desagradáveis, e esse vigilância não deve cessar, mesmo quando está imerso nos trabalhos e nos sofrimentos.
Essa é a única ioga verdadeira, o único exercício espiritual digno de ser praticado.
Quanto mais um homem conhece os propósitos dos indivíduos, mais sabe a respeito de Deus.
Adaptando a linguagem de Spinoza, podemos dizer: Quanto mais um homem sabe o seu modo de sentir em relação a cada tipo de experiência, maiores são as chances de que um dia venha a descobrir quem realmente é, ou melhor, Quem (com Q maiúsculo) Realmente (com R maiúsculo) É (com E maiúsculo).
São João estava certo. Num universo abençoadamente mudo, a Palavra se limitava a estar com Deus. Era o próprio Deus. Alguma coisa para ser acreditada. Um símbolo projetado, um nome para ser adorado. Deus = Deus.
A fé é uma coisa muito diferente da crença. A crença resulta do fato de se levar a sério (sem a menor análise) as palavras proferidas – Palavras de Paulo, de Maomé, de Marx e de Hitler -palavras que o povo levou a sério…Que resultou disso?
O resultado foi a ambivalência sem sentido da história – o sadismo apresentado como dever, a devoção contrabalançada pela paranóia, as despersonalizadas irmãs de caridade cuidando das vítimas dos inquisidores e dos cruzados da Igreja à qual pertencem.
Fé, ao contrário da crença, nunca pode ser levada muito a sério. Ela é a confiança empiricamente justificada na nossa capacidade de saber quem realmente somos. É ela que nos permite esquecer o crente Maniqueísta que existe no âmago do Bom Ser.

“A Ilha”,  Aldous Huxley

 

 

 

The Yogin and the Stoic — two righteous egos who achieve their very considerable results by pretending, systematically, to be somebody else. But it is not by pretending to be somebody else, even somebody supremely good and wise, that we can pass from insulated Manichee-hood to Good Being.
Good Being is knowing who in fact we are; and in order to know who in fact we are, we must first know, moment by moment, who we think we are and what this bad habit of thought compels us to feel and do. A moment of clear and complete knowledge of what we think we are, but in fact are not, puts a stop, for the moment, to the Manichean charade. If we renew, until they become a continuity, these moments of the knowledge of what we are not, we may find ourselves, all of a sudden, knowing who in fact we are.
Concentration, abstract thinking, spiritual exercises-systematic exclusions in the realm of thought. Asceticism and hedonism—systematic exclusions in the realms of sensation, feeling and action. But Good Being is in the knowledge of who in fact one is in relation to all experiences. So be aware— aware in every context, at all times and whatever, creditable ordiscreditable, pleasant or unpleasant, you may be doing or suffering. This is the only genuine yoga, the only spiritual exercise worth practicing.
The more a man knows about individual objects, the more he knows about God. Translating Spinoza’s language into ours, we can say: The more a man knows about himself in relation to every kind of experience, the greater his chance of suddenly, one fine morning, realizing who in fact he is— or rather Who (capital W) in Fact (capital F) “he”(between quotation marks) Is (capital I).
St. John was right. In a blessedly speechless universe, the Word was not only with God; it was God. As a something to be believed in. God is a projected symbol, a reified name. God = “God.”
Faith is something very different from belief. Belief is the systematic taking of unanalyzed words much too seriously. Paul’s words, Mohammed’s words, Marx’s words, Hitler’s words— people take them too seriously, and what happens?
What happens is the senseless ambivalence of history— sadism versus duty, or (incomparably worse) sadism as duty;devotion counterbalanced by organized paranoia; sisters of charity selflessly tending the victims of their own church’s inquisitors and crusaders.
Faith, on the contrary, can never be taken too seriously. For Faith is the empirically justified confidence in our capacity to know who in fact we are, to forget the belief-intoxicated Manichee in Good Being.
Give us this day our daily Faith, but deliver us, dear God, from Belief.

“Island”, Aldous Huxley

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Sobre ariaround

25, santista, apaixonada e viajante em todos os sentidos...agora em Goa, na Índia. Amante da escrita, de lugares novos, crenças e pessoas.

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