Hampi bus note

Voltando de Hampi com passagem comprada, entramos rapidão na fila do nosso ônibus que tinha sleeper seat (estilo caminha) à 700 rúpias (28 reais).

Nos acomodamos onde o “organizador” (aspas mais que merecidas) apontou como os nossos assentos, que não tinham número em lugar nenhum, mesmo tendo na passagem. Fechamos a cortininha e esperamos ansiosamente o furdúncio acabar, praxe em qualquer viagem na Índia. Pra não dizer em qualquer COISA na Índia. hehe.

No ônibus tinha também bancos normais, reclináveis. Entre eles, os gringos tentavam se achar e os vendedores ambulantes (com passagem livre lá dentro) ofereciam água, biscoitos e travesseiros infláveis, gritando e insistindo pelo menos umas 5 vezes ( SÉRIO) se você não ia precisar MESMO de nada daquilo.
Enquanto isso, do lado de fora, aproveitando a alta concentração de turistas, crianças maltrapilhas e  imundas sujinhas assoviavam e gritavam SIR, pedindo dinheiro e fingindo não ter um braço, muito visivelmente escondido dentro da camisa. Era pelo menos umas 1o, e elas sequer tentavam truques diferentes, era tipo a gangue de um braço só. haha 

Depois de quase meia hora, quando todo mundo tava acomodado, entra uma mocinha alemã sem sorte, coitada. Mesmo estando com uma passagem sleeper comprada há dias, não sobrou assento pra ela, a não ser uma cadeira que sequer reclinava, do lado do corredor E com o apoiador de braço quebrado. Esses assentos eram normalmente pra pessoas que desciam no meio do caminho, porque quem vem de Hampi, normalmente vem estafado por ter andado o dia inteiro e dormido pouco.

Obviamente o furdúncio recomeçou, e ok, com razão, eu também daria uns berros de ter que viajar 15 horas sentada nessas condições sendo que paguei pelo assento mais caro. Mas antes de trágico, a situação era engraçada pela forma que os desorganizadores indianos tentavam resolver o problema. De dentro da nossa cabininha,  escutávamos. Primeiro, falaram pra ela esperar pelo próximo ônibus, que segundo eles partiria às onze da noite (eram seis da tarde). Mas nós, que já tinhamos visto todos os horários de ônibus Hampi-Goa sabíamos que esse ônibus não existia. Só tem ônibus das seis de lá pra cá. Era só um jeito deles calmamente se desfazerem do problema e deixar o ônibus ir embora e a menina que se virasse depois. O absurdo e a graça estão na naturalidade e calma com que eles falam isso, como se eles estivessem absolutamente acostumados à esse tipo de situação. 

Não satisfeita, claro, a menina continuou clamando por um sleeper seat, e dizendo que não queria saber, que ela tinha pago, que era aquele horário, que eles tinham que dar um assento pra ela e blabla.  O cara, novamente, na maior paz de Shiva, apontou o assento não reclinável do braço quebrado – Pra ele, é um assento, oras, se quer tanto, vai nesse aí – e ela quase começou a chorar. Ele então, cheio de piedade, disse pra ela que não se preocupasse, que ele devolveria 50 rupias ( 2 reais!!!) de reembolso. hahahaha (sendo que a diferença da passagem era uns 15 reais, bastante dinheiro na Índia).

O pessoal do ônibus começou então a se meter e querer ir embora, falando pra ela os desesperançosos jargões que tanto se escuta nos momentos difíceis aqui…”This is INDIA, honey, you know how it is…”, “Sab kuch Milega, everything is possible here” , “Come on, accept what it comes and let’s move on…”

Com a “pressãozinha” da galera e com a promessa de 50 rúpias de volta do organizador (=P) a menina resolveu ir com o ônibus. Não sem antes tentar ao menos um assento na janela, mais uma vez em vão, já que os caras também não iam tirar ninguém do assento  já ocupado pra dar pra ela, né? Ok. Com uma hora de atraso, partimos, ouvindo as lamentações da galeguinha, ora em Inglês, ora em Alemão por pelo menos 2 horas. 
Nesses momentos é fácil saber quem tá vindo pra cá pela primeira vez. É normal ficar irritado com uma situação assim mesmo sabendo que na Índia tudo é possível, mas é na nossa habilidade de deixar passar e esquecer que nos descobrimos mimados…

Quando o ônibus parou pra gente jantar (vou poupá-los da descrição de restaurante de beira de estrada aqui), consegui finalmente ver direito a cara da menina do banco quebrado, e a reconheci imediatamente. Ela tinha pego o mesmo ônibus que a gente de ida, com outras duas amigas. Na ocasião, as meninas deitaram nas “camas” logo abaixo da gente, e ela, a galeguinha, veio reclamar, dizendo que tinha tido menos sorte que elas, pois dormiria na parte de cima e do lado de um indiano. Ao ouvir isso, fiz questão de abrir a cortininha, olhar quem falava e fazer cara feia.
Observar as isquisitisses e diferenças daqui é uma coisa, mas se não quer ficar do lado de indiano não vem pra Índia né, caceta?

Quando vi que era ela na segunda vez, tudo se explicou…Se você se mostra estressado pros Indianos, se prepara que eles vão te mostrar o que é stress de verdade. E mesmo quando não tem a mão deles como nesse caso,  tem o Karma, o ciclo de causa e efeito, levado tão à sério por eles. Mesmo nós ocidentais acreditamos no “Aqui se faz aqui se paga”, “Colher o que plantar”…mas num país onde realmente TUDO é possível, essa troca de energias fica ainda mais visível. 

Gostaria de pensar que a galega, ao invés de reclamar durante duas horas, se perguntou uma única vez o porque daquela merda acontecer com ela, justo com ela, por quê? Porém, ao descer do ônibus ela ainda reclamava suas 50 rúpias. Maybe next time…

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Sobre ariaround

25, santista, apaixonada e viajante em todos os sentidos...agora em Goa, na Índia. Amante da escrita, de lugares novos, crenças e pessoas.

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