Trip update 5. Istanbul

Pra mim visitar um novo lugar está 100% conectado com as pessoas que ele habitam, por isso, prefiro passar mais tempo em menos lugares do que pouco tempo em mais lugares. Desenbarcar num lugar, ver pontos turísticos, tirar fotos e comer comidas típicas me parece pouco perto do que se pode descobrir sobre um lugar a partir daqueles que moram lá. Não só por eles te mostrarem coisas que não estão no “ Lonely Planet”, mas por tentar entender o quanto o ambiente em volta influencia na forma em que vêem a vida.

Me apaixonei por Istanbul desde a primeira vez que estive aqui, mas tive hard time com os Turcos. Tô vendo que quanto mais a gente conhece, mais a gente acha problema (foi assim na Índia também).
Parece que primeiro tem a fase do encantamento. Tudo é lindo, o povo é legal, aberto, prestativo…Aquela visão turística, afinal, você não gastou tudo isso de dinheiro e se moveu pro outro lado do mundo pra voltar pra casa odiando um lugar, né? :P
Depois de um tempo você começa a ver que não é aquela maravilha. Começa a achar defeito em tudo, as diferenças culturais ficam gritantes e difíceis de entender e você começa a achar que não gosta daquele povo. Vai de um extremo à outro.
Na terceira fase, a que eu acho que me encontro no momento, é a da aceitação. Rola um equilíbrio entre as coisas boas e ruins, aceitas por você há muito tempo na sociedade em que pertence, e por isso aceitas na nova também. Você continua enxergando as diferenças que, por vezes te agradam, por vezes não, mas acima disso, você entende que é um povo diferente MESMO e pronto. Sem choro nem vela.

Venho convivendo há mais de dois anos com Turcos diariamente e já fiz pelo menos 2.314 teorias sobre a forma como pensam. Tentava pegar características comuns aos que conhecia pra entender porque agiam dessa ou daquela forma.
Algumas das minhas maiores dúvidas explicaram-se depois que eu li Orhan Pamuk, Turco e mundialmente conhecido, vencedor de Nobel e o escambau.

Li “Istanbul, memories of a city” sem querer, buscando detalhes sobre a história da cidade, mas a obra se mostrou muito mais humana e pessoal do que eu poderia esperar. Nesse livro encontrei acidentalmente uma explicação decente para uma coisa bem profunda que eu não entendia a respeito dos Turcos e ela se resume em uma palavra: Hüzün.

Pra muitos visitantes de Istanbul, pro Orhan Pamuk e mesmo pra mim, esse tal de hüzün é “confundido”com um certo mistério, uma energia mística, difícil de explicar, mas que é o que a maioria dos turistas sentem em uma visita à cidade. O canto das mesquitas, os contrastes e os muitos rostos sisudos dão à Istanbul um ar de que há algo mais acontecendo ali, algo que essas pessoas parecem dividir e que não se entende de primeira.

Pois hüzün é justamente o nome dado à essa sensação, que segundo Pamuk significa uma melancolia comum, não pessoal, algo dividido por um cidade inteira (talvez país) de geração a geração. Essa palavra aparece no Corão 5 vezes e denota um sentimento de perda profunda de espiritualidade, o que obviamente não tem a ver com religião. Os Sufistas (que vivem o lado místico do Islamismo, que lêem o Corão de forma poética e não literal) explicam o hüzün como o sentimento de não sentir-se suficientemente perto de Deus. Isso, na minha humilde opinião, causa uma falta de fé generalizada. Novamente, não religiosa, mas uma falta de fé em si mesmos e no próximo.

A razão do hüzün apontada por Pamuk é o fato de que os Turcos vivem da lembrança de um passado glorioso. A Constantinopla (hoje Istanbul), foi capital de diversos impérios, e durante Eras foi a maior e mais próspera cidade da Europa. Depois da queda, o que restou foram as ruínas dessa riqueza, um lembrete constante de que será muito difícil reerguer-se àquele ponto.
É fato que a beleza da cidade está justamente nos escombros, nas construções abandonadas, que visivelmente foram riquíssimas um dia, mas sem dúvida esse colapso refletiu profundamente em seus habitantes e nas gerações posteriores.

Esse apego ao passado e falta de fé pelo que aconteceu com o seu povo faz de grande parte das pessoas daqui um tanto desesperançosas, descofiadas, difíceis de conquistar, não só para estrangeiros, mas entre as próprias (por muitas vezes, amigos Turcos tentaram nos convencer que novos Turcos que conhecíamos não prestavam, sem o menor embasamento sobre os coitados…).

Aqui, cada família vive de acordo com as suas regras e infelizmente pra maioria delas, de resto, ninguém tem o mesmo valor.
A confiança se restringe tanto à família que muitos Turcos até estranham o fato de termos 10, 20, 30 amigos de verdade com quem podemos contar. Pra eles, normalmente, você tem a família e dois ou três “dosts”, que você escolhe como irmãos. Muitas vezes eles sequer têm a ver com você, mas é a forma que o povo cultiva desde bem jovem a ter com quem contar.

A família na Turquia é sem dúvida o porto seguro. É nela que as pessoas buscam ajuda ou paz quando precisam, porém isso não quer dizer que os membros da mesma se conheçam, e pra mim, Brasileira “livro aberto”, isso é meio triste. 
É quase impossível um filho ser amigo de um pai aqui. Um pai é sempre um pai. Ele merece todo o respeito do mundo e por isso nunca vai saber quem o filho é de verdade. Muito dificilmente um filho vai se assumir gay pra família, da mesma forma que uma filha não vai sair rebolando e beber uma cerveja na frente dos progenitores. Isso é coisa pra se fazer escondido. E eles preferem assim. Ambos. Tanto pais, quanto filhos.
Conheço histórias de filhos que se casaram com alguém que os pais não aprovavam, e nem era por fator religioso, apenas monetário. Pois os filhos, deixam de ser filhos. Foram adotados pela outra família…É difícil conceber pais que viram as costas pra um filho e que pra vida INTEIRA guardam esse rancor apenas por suas vontades não serem cumpridas. Quando não se pode contar sequer com o apoio do seu pai e da sua mãe pra mostrar quem você é, em quem você vai confiar? Como confiar em alguém?
Os próprios pais não confiam. Não confiam nos filhos, não confiam nos outros, provavelmente por não confiarem em si e talvez, segundo o significado de
hüzun, por não confiarem em Deus, ou não se sentirem perto ou parte dele o suficiente

Infelizmente vêem sempre um desastre prestes a acontecer.

Esse medo e falta de fé se mostra também na forma hiper protetora em que os Turcos são criados. O próprio Orhan Pamuk conta no seu livro que quando um serial killer estava sendo procurado na cidade, sua mãe não deixava ele e o irmão brincarem sequer no jardim da própria casa, de frente pra rua. Em outro momento, um barqueiro da cidade estuprou uma mulher que levava uma criança no barco, e por isso sua mãe jamais andou de barco com ele novamente (Aqui os barcos eram como taxi antigamente).
Uma vez escutei a história da namorada de um amigo, que nunca andou de bicicleta e nem aprendeu a nadar porque seus pais nunca deixaram, achando que algo de ruim pudesse acontecer….Um dos meus ex chefes, gay, ainda faz os pais pensarem que lhe dará netos com uma amiga que finge ser namorada. Nessa mesma família, os pais nunca deixaram todos os 9 filhos andarem juntos de barco ou de carro. Era sempre dividido, pois caso algum acidente acontecesse, parte dos pupilos estariam salvos…
Além dessas, há sempre as histórias dos nossos vários amigos de 20 e tantos, 30 anos que moram com os pais e tem que lhes dar satisfação de absolutamente tudo.

É engraçado relacionar essas histórias com o símbolo comum da Turquia, ou seja, o Evil Eye, ou olho Turco/Grego. Tem um amuletinho desse pendurado em TODA casa e estabelecimento por aqui. O que me faz pensar…O mal não está nos olhos de quem vê? Se você acha TÃO importante se proteger do mau olhado, não seria porque você o conhece bem?
Faz algum sentido pra mim…

Eu consigo entender o porque dessa proteção, o porque da falta de fé, o porque da dificuldade de ouvir verdades…Mas isso é o que faísca quando nós brasileiros estamos perto. Nós, na maioria, confiamos antes de desconfiar. Damos chance. Se pisam na bola, perdem a vez. Mas damos chance. Durante 2 anos eu e Ricardo tentamos simplesmente sermos nós mesmos, mas é difícil ver que mesmo depois de tanto tempo, muitos ainda te tratam como se a qualquer momento você fosse virar um monstro. Elas acreditam tanto nisso, que acabam quase te fazendo virar um, de fato. É muito louco. 

Falarmos o que queremos também é um tanto dolorido pra eles, se incomodam com pouco. Ai de mim deles traduzirem esse texto…Passarei eras me explicando.
Aqui é quase uma blasfêmia expressar literalmente o que você pensa, até quando se trata de elogios, demonstração de carinho, coisas boas no geral,  tipo: falar pra um amigo que ele está gostando de uma menina diferente da que ele sonhou é quase uma ofensa! É tipo: Ari…Fica quieta, não quero ouvir isso. (!!!) Aliás, eu ouço essa última bastante por aqui. Hehehe
Por essas e outras youtube e vimeo são banidos na Turquia. Um belo dia alguém fez vídeos mostrando o outro lado do Atatürk, o grande herói Turco e por isso ninguém mais tem direito a acessar esses meios.

A própria língua Turca tem muitas maneiras de dizer as coisas em entrelinhas, e se você conhece um Turco COM CERTEZA você já ouviu muitas indiretas. Isso é princípio básico. Acho poético até, bonito por um lado. Eles sempre acham uma forma mais pomposa de dizer as coisas. Porém, em certos momentos, acho que é preciso ser direto. Ser verdadeiro conta mais do que soar manso. E se você quer a opinião de um Brasileiro, se ele não for do tipo mais superficial, ah…Você terá.

Enfim…Todas essas considerações foram feitas basicamente nesse meu período em Istanbul. Faz dois anos e meio que vim aqui pela primeira vez. Essa, minha quinta vez na cidade, me fez juntar alguns pontos que percebi nesses dois anos trabalhando com Turcos de diferentes famílias e backgrounds, e acho que se aplica no geral. Sempre no geral. Em todo lugar há excessões, há diferenças, e cada qual enxerga um povo de sua forma única. Um Turco nunca vai enxergar a si mesmo como um Brasileiro enxerga, assim como um Brasileiro nunca vai exergar a si como um Turco enxergaria, ou mesmo outro Brasileiro. Essas são só divagações de quem escreve, não dá pra levar tudo ao pé da letra. Cada qual com sua experiência.

Ainda assim, continuo tendo vontade de conhecer a Turquia ainda mais. Primeiro, por ser um país LINDO, cheio de belezas naturais e MUITO únicas. Segundo, porque muito me agrada o misticismo do Islã, e espero poder falar em breve um pouco mais sobre Sufismo. E terceiro porque fiz amigos pra vida aqui. E esses, sabem que é possível quebrar os parâmetros e ir além.


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Sobre ariaround

25, santista, apaixonada e viajante em todos os sentidos...agora em Goa, na Índia. Amante da escrita, de lugares novos, crenças e pessoas.

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