Eu, o mundo e o canto

Depois de me “estabilizar” no Brasil, quis aprender algo novo e decidi então por “lapidar” minha voz…

Na verdade o canto nunca foi novo. Desde bem criança eu gostava dessa arte, perdi as contas de quantas vezes meu irmão, dois anos mais novo que eu, morria de vergonha nos ônibus da vida, porque eu não me continha de tédio e me entretia cantando. Muitas vezes até meu pai, que sempre gostou da minha voz (será?), me pedia pra calar a boca nas longas viagens de carro – depois de 2 horas cantando ininterruptamente – ou simplesmente aumentava o volume do rádio pra ver se eu me tocava. hehe

Nunca me importei também se enquanto eu cantava as outras pessoas olhassem feio na rua, mas sempre fui um pouco tímida para fazê-lo se me pedissem, então nunca levei o canto muito à sério. Tive banda aos 14, 15, cantei em muito karaoke, e me apresentei na escola algumas vezes. Minhas amiguinhas ficavam todas orgulhosas.
Lembro de ter cantado “Sweet Child O’ Mine” pro meu maior público, no ano 2.000. hehehe

Fui crescendo e estragando a voz. Primeiro por não saber usá-la. Segundo pelos maus vícios que a velha adolescência nos traz. Meio que tinha desistido de cantar, até esse ano.
No meu tempo no exterior, um dos meus chefes turcos falava que eu devia largar tudo e virar cantora. Nunca tinha me ouvido cantar efetivamente, mas me via cantarolando pra lá e pra cá o dia inteiro. – É natural seu, ele dizia. –
Realmente é natural, e esse foi o motivo de eu ter escolhido o canto a me dedicar. Mas os turcos tem muita vergonha de fazer coisas em público, então só o fato de você esboçar um som já faz eles acharem isso especial.

Por outro lado, na Índia, TODO MUNDO canta o tempo todo. E MUITO, MUITO bem.

Lembro bem de um fim de tarde, no nosso acampamento no Himalaya, o grupo todo estava secando as roupas úmidas em volta da fogueira e resolveram que cada um cantaria uma vez. O fato de TODOS aceitarem e adorarem a brincadeira, já mostrava que eles eram diferentes. O primeiro a cantar foi uma criança. Voz afinadíssima, uma graça. Logo depois me mandaram cantar, e eu, sendo a gringa, até que me soltei, já que só o fato de eu cantar na minha língua já seria suficientemente legal. Não me preocupei muito em como a minha voz estava saindo.
Depois de mim, começaram – Amigos meus de lá de algum tempo já, as senhorinhas, o guia, o puxador das mulas, o menino do chai, TODO mundo era cantor profissional ali, sério.Eu fiquei muito embasbacada.
Me deu até vergonha de como eu tinha cantado. hehe

Além dos indianos serem apaixonados por música, seus hábitos são os melhores possíveis pra voz. Tenho certeza que o estilo de vida deles faz a população inteira ter um timbre limpo.
Apesar da poluição da maioria das cidades, indiano praticamente não fuma. Tenho dificuldade de lembrar de um que fumasse, nesses 2 anos e meio de India (eles preferem o tabaco com especiarias mascado, como fazem com o paan).
Além de não fumarem, eles não bebem nada gelado, já que a falta de eletricidade ainda é muito comum no país todo, então não há a tradição do “frescor” que uma geladeira pode trazer à bebida. Mesmo quem tem geladeira em casa, não tem costume de beber gelado.
E, o mais importante de tudo acho, é a quantidade de pimenta e condimento que comem. A garganta, as cordas vocais, estão SEMPRE aquecidas assim. Se algo gelado prejudica as cordas, esse monte de spicy só pode fazer muito bem pra elas!

Era lindo ouvi-los cantar. Todos muito afinados, muito seguros, dava pra imaginar cada um deles fazendo aquilo muitas vezes na frente do espelho segurando uma escova de cabelo. É muito típico deles – “Wanna be a superstar” – E funciona.
Passei a perceber o quanto não era só ali, em volta da fogueira que as vozes eram bonitas, mas no monte de saddhus que passavam cantando nas ruas, nas tiazinhas que trabalhavam na construção civil, nos menininhos carregadores de sacola…Enfim..Geral.

Eu, de volta, tenho tentado me inspirar nessa galera, e cantar, independente do que. As aulas tem me feito ver que qualquer um pode cantar. Só é necessário treino, alguma técnica e cuidado pra aquecer, pra manter a voz saudável e especialmente saber onde a sua voz se encaixa. Antes, eu me metia a cantar qualquer música que eu gostasse, mas hoje, eu vejo que dá pra ser bem sábio na escolha delas e valorizar muito a própria voz.

Por outro lado, essa vontade de cantar de tudo tem me dado já uma vontade tremenda de tocar um instrumento…Hoje me parece absurdo ser cantor durante anos na vida sem tocar nada. A vontade de compor é automática, e quase toda vez que eu tô cantando algo, tô pensando em outra versão, que só dá pra pôr pra fora, tocando.

Será que eu dou conta? Quem sabe depois da minha fase secretária-executiva-bilingue, se eu treinar nas ruas, bares e metros pelo mundo? Rs.

Em algumas dias, farei meu primeiro dinheiro com música, e isso já é beeem, beeem mais do que eu esperava. :)

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Sobre ariaround

25, santista, apaixonada e viajante em todos os sentidos...agora em Goa, na Índia. Amante da escrita, de lugares novos, crenças e pessoas.

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